O design invade a gestão empresarial

O papel do design no universo das empresas sofreu ampla modificação nos últimos anos. O conceito clássico do design trazido pela arquitetura basicamente empregava forma (estilo) e função (tecnologia) aos produtos para atender as necessidades humanas. Depois com o desenvolvimento do mundo das marcas (como Nike, Starbucks, Lego), o design passa a agregar valor simbólico e emocional aos produtos através da mensagem: produtos+marcas se transformam em experiências memoráveis para as pessoas. Só que recentemente o design invade o mundo da gestão…e enquanto “modo de pensar” (design thinking) dos executivos, passa a fazer parte das formulações estratégicas dos negócios. A Apple e seu cofundador Steve Jobs é o emblema desta mudança no papel do design na sociedade.

O papel do design até então funcionava mais ou menos assim…a diretoria das empresas definia a estratégia e contratava designers para conceber produtos, serviços e marcas originais (o “como fazer”). O design thinking enquanto modo de pensar ampliou este espectro de atuação: empregando o design para um universo mais amplo de problemas, complementando a atitude de ser designer para o pensar como designer, aplicado ao mundo da estratégia e dos negócios. A partir de agora, design thinkers se juntam aos executivos das empresas para desenharem estratégias de negócios (o ”que fazer”) por isso a expressão “design estratégico”.

De acordo com Claudia Kotchka, VP de Design, Inovação e Estratégia da Procter & Gamble, “o design tem desempenhado um papel essencial em nossa estratégia corporativa nos últimos anos (…) Estamos começando a capitalizar a força das ideias do design em nível estratégico. Nossa ambição é propiciar novas oportunidades para o consumidor capazes de seduzi-lo, além de estimular o crescimento da empresa de novas formas através da ideia do design, incorporando-a ao nosso DNA.” Além da P&G, a Nestlé e suas recentes investidas em novos modelos de negócio (Nespresso e Nestle Health Science) são ótimos exemplos do design estratégico.

O modo de pensar convencional da gestão baseia-se essencialmente na lógica indutiva (a lógica do que é eficiente, que argumenta do específico para o geral provando que algo de fato funciona) e na lógica dedutiva (a lógica do que deve ser, que tira conclusões do geral para o específico comprovando que algo precisa existir). As empresas que deixaram o design invadir a gestão levam em consideração uma outra lógica, a “abdutiva”, e partem do pressuposto de que algo não só pode como deve existir e pode ser explorado através da imaginação e da intuição. No modo de pensar convencional da gestão, vale a análise e confiabilidade das informações para uma equipe executiva decidir investir em uma nova ideia; já no design thinking trabalha-se a “validez” da idéia, ou seja, investem-se nas ideias que tem valor e que faça sentido para os clientes e outros stakeholders.

Em termos de modo de pensar, os “design thinkers” são pessoas que se preocupam com criar de valor, melhorar o mundo, criar significado para as pessoas, empreender e experimentar. O modo de pensar direciona a escolha de métodos e ferramentas apropriadas para este modo de pensar, então as principais ferramentas do design thinker são a exploração, a observação, a imaginação, a prototipagem e a configuração (modelagem) de negócios. Em geral, os “design thinkers” estão levando as organizações na direção da economia e da sociedade criativa, procurando mobilizar recursos procurando mobilizar inovação para o crescimento.

Tipicamente organizações brasileiras (dos setores privado, público e 3o setor) acostumadas com a gestão convencional (não significando que isto esteja certo ou errado) oferecem resistência para abrigar o modo de pensar do design, por uma série de razões entre elas a baixa propensão ao risco dos executivos, a pressão dos acionistas por resultados de curto prazo e a sensação do “não se mexe em time que está ganhando”…

No entanto aqui vão alguns exemplos de organizações no Brasil que deixaram os “design thinkers” invadirem a sua gestão…Natura, Santander, VisaVale, Tecnisa, Senai, Fiat, Hospital Moinhos de Vento.

Sobre andrercoutinho

André Ribeiro Coutinho Sou ativista & designer de inovação pela Symnetics (www.symnetics.com.br) e professor de empreendedorismo e inovação da ESPM, BSP-Business School São Paulo e FIAP. Uma parte do meu trabalho é com as empresas e consiste no design e implementação de iniciativas de inovação envolvendo indivíduos de dentro das empresas e de fora dela (representantes dos clientes, clientes dos clientes, influenciadores, parceiros e outros agentes) em um processo de co-criação off line e on line. Este tipo de trabalho, por sinal estimulante e de alto valor para as empresas (é o que elas dizem), é puro engajamento de pessoas. Inclui a descoberta com liderança do por que, como, onde e com quem inovar, a facilitação e aplicação de mais de 50 métodos para diferentes equipes na geração de idéias e oportunidades, o design de soluções, modelos de negócio e propostas inovadoras de valor (estratégia do oceano azul), a tradução de tudo isto em business cases / business plans, scorecards e portfolios de projetos. Daí procuramos transformar tudo isto em processo contínuo através de tecnologia, governança adequada, métricas e sistemas de incentivos. Uma outra parte do meu trabalho acontece na através da construção de agendas estratégicas públicas para o desenvolvimento econômico e social de forma co-criada com empresários e outros agentes da sociedade civil organizada. Acredito que iniciativas não governamentais estão gradual e silenciosamente transformando o Brasil nos últimos e influenciando políticas públicas ("policies") de governo. A tereceira parte do meu trabalho com iniciativas de educação a exemplo das comunidades de prática, summits, fóruns de gestão e inovação e jornadas de aprendizagem em que as pessoas aprendem na prática vivenciando e dramatizando os conceitos. Não acredito nos modelos tradicionais de ensino em que o professor (sabe tudo) ensina e o aluno (sabe nada) aprende. Desde 2005 coordeno no Brasil e América Latina a rede de inovação co-criação através da aliança com a Experience Co-Creation Partnership (EUA), fundada por Venkat Ramaswamy e Francis Gouillart. Sou co-autor e co-organizador do livro "Gestão da Estratégia: Experiências e Lições de Empresas Brasileiras" (editora Campus) e escrevo mensalmente para revistas, jornais, portais e livros de negócio no Brasil, América Latina e Estados Unidos. Estou escrevendo 2 livros, um chamado "O Ativista da Estratégia" (editora Campus) e outro em parceria com o Ramaswamy com título provisório "Co-crianção de Valor: Inovação Made in Brazil", ambos com previsão de lançamento em 2010. De vez em quando sou palestrante convidado em universidades e nos eventos de management no Brasil e exterior. Sou casado e tenho uma filha de 1 ano. Tenho como hobbies a leitura, a yoga, comics, cinema e viagens exóticas pelo planeta. Como filosofia de vida, acredito que temos que moldar e implementar o que queremos do mundo em que vivemos, mão dá para esperar que os "outros" façam isto.
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s