Adaptando nosso modo de pensar para agir

Quando o assunto é inovação, temos sido bombardeados diariamente por conceitos, métodos e técnicas trazidas por livros, revistas e pelos “gurus” do management. Open Innovation, Cocriação, Design Thinking, Inovação Reversa, Inovação de Valor, Business Model Generation, Triz são algumas destas tendências. Mas…o que de fato move a inovação nas empresas? A resposta todos nós sabemos, são pessoas. Mas tudo começa com um trabalho de poucas pessoas ou até de uma única pessoa engajadas em fazer algo diferente. No caso de Dell, Starbucks, Virgin, Apple é fácil encontrar estas pessoas, pois elas são nada mais nada menos que seus fundadores-empreendedores-executivo sênior. Dizem inclusive por aí que, quando estas pessoas, no caso respectivamente de Michael Dell, Howard Schutz, Richard Branson e Steve Jobs saíram, por um tempo destas empresas, a coisa degringolou, daí eles tiveram que voltar…mas não são pessoas quaisquer….elas operam (ou passam a operar) com modos de pensar e visões de mundo bem peculiares. Empresas verdadeiramente inovadoras têm, afinal de contas e necessariamente, a figura de um ou mais ativistas internos, lideranças que operam com modos de pensar alternativas e visões próprias de como funciona (ou deveria funcionar) o mundo.

Modos de pensar e visões de mundo influenciam enormemente a forma pela qual lidamos com a problemática das empresas no contexto (complexo) em que elas estarão inseridas. Mudanças ou adaptações, portanto, nos modos de pensar e visões de mundo, pequenas que sejam, são as verdadeiras molas propulsoras dos processos de inovação. Da mesma forma, de nada adianta adotar os diversos métodos e técnicas de inovação sem que os modos de pensar e visões de mundo de, pelo menos, parte da liderança executiva das empresas esteja devidamente “ajustada” para a entrada de processos desta natureza.

Exemplifiquemos com algumas considerações no campo da estratégia. Vale salientar que aqui não acabe um julgamento dos modos de pensar e sim explicitar os modos vigentes e lançar alguns modos alternativos….

- nos últimos 25 anos nós fomos fortemente influenciados pelo modo de pensar da “estratégia competitiva” (do Michael Porter) que nos trouxe inclusive um jargão particular – tipo barreiras à entrada, forças e fraquezas, ameaças, vantagem competitiva, “conquistar” market share – ora, este não seria o modo de pensar dos militares diante de uma guerra? Pois bem, é com este modo de pensar de combate a concorrência que normalmente as empresas formulam estratégias. E estratégias são executadas através de uma “cadeia de valor” de processos que, de forma eficiente, entregam valor para clientes que, em geral, são passivos e não participam destes processos.

Existe algum modo de pensar alternativo?

E se, ao invés do enfoque estratégico não fosse a competição e sim, por exemplo, o indivíduo (os stakeholders), ou melhor, a experiências dos indivíduos? Ou seja, o papel da estratégia seria então de melhorar ou transformar a experiência, a vida das pessoas.

E se ao invés de processos, começássemos a trabalhar um novo ponto de vista nas empresas, o das interações? Ora, interações são humanas e, portanto, redesenhá-las é uma questão de mexer em aspectos como diálogo e transparência com os stakeholders. Bem, isto é mais ou menos o que acontece na cocriação de valor…

- Por outro lado, aprendemos que estratégia é uma questão de escolhas (“trade offs”) e que portanto devemos analisar diversas alternativas com dados e fatos e escolher uma posição estratégica. Minha empresa precisa optar por uma posição estratégica tipo ser a líder de custos no setor ou ter o melhor produto ou o melhor padrão de relacionamento com clientes…

Modo de pensar alternativo 1: e se ao invés de escolher uma posição pré-definida pelas análises, eu combinasse elementos de 2 posições estratégicas previamente existentes, gerando uma nova posição, singular, única? Ora, este é o pensamento integrador (integrative thinking…) o

Modo de pensar alternativo 2: E se, ao invés de analisar de forma consistente com dados e fatos para em seguida selecionar uma alternativa estratégica, minha empresa optasse por imaginar, moldar e conceber futuros alternativos que façam sentido para as pessoas? Este é o design thinking…

Para saber mais sobre o assunto…

A Empresa Cocriativa, de Venkat Ramaswamy e Francis Gouillart, editora Campus Elsevier, 2010, com revisão técnica da Symnetics

Design de Negócios, de Roger Martin, editora Campus Elsevier, 2010, com revisão técnica da Symnetics

Pensando Diferente, de Humberto Mariotti, editora Atlas – Business School São Paulo, 2010

Integração de Ideias, de Roger Martin, editora Campus Elsevier, 2008

Sobre andrercoutinho

André Ribeiro Coutinho Sou ativista & designer de inovação pela Symnetics (www.symnetics.com.br) e professor de empreendedorismo e inovação da ESPM, BSP-Business School São Paulo e FIAP. Uma parte do meu trabalho é com as empresas e consiste no design e implementação de iniciativas de inovação envolvendo indivíduos de dentro das empresas e de fora dela (representantes dos clientes, clientes dos clientes, influenciadores, parceiros e outros agentes) em um processo de co-criação off line e on line. Este tipo de trabalho, por sinal estimulante e de alto valor para as empresas (é o que elas dizem), é puro engajamento de pessoas. Inclui a descoberta com liderança do por que, como, onde e com quem inovar, a facilitação e aplicação de mais de 50 métodos para diferentes equipes na geração de idéias e oportunidades, o design de soluções, modelos de negócio e propostas inovadoras de valor (estratégia do oceano azul), a tradução de tudo isto em business cases / business plans, scorecards e portfolios de projetos. Daí procuramos transformar tudo isto em processo contínuo através de tecnologia, governança adequada, métricas e sistemas de incentivos. Uma outra parte do meu trabalho acontece na através da construção de agendas estratégicas públicas para o desenvolvimento econômico e social de forma co-criada com empresários e outros agentes da sociedade civil organizada. Acredito que iniciativas não governamentais estão gradual e silenciosamente transformando o Brasil nos últimos e influenciando políticas públicas ("policies") de governo. A tereceira parte do meu trabalho com iniciativas de educação a exemplo das comunidades de prática, summits, fóruns de gestão e inovação e jornadas de aprendizagem em que as pessoas aprendem na prática vivenciando e dramatizando os conceitos. Não acredito nos modelos tradicionais de ensino em que o professor (sabe tudo) ensina e o aluno (sabe nada) aprende. Desde 2005 coordeno no Brasil e América Latina a rede de inovação co-criação através da aliança com a Experience Co-Creation Partnership (EUA), fundada por Venkat Ramaswamy e Francis Gouillart. Sou co-autor e co-organizador do livro "Gestão da Estratégia: Experiências e Lições de Empresas Brasileiras" (editora Campus) e escrevo mensalmente para revistas, jornais, portais e livros de negócio no Brasil, América Latina e Estados Unidos. Estou escrevendo 2 livros, um chamado "O Ativista da Estratégia" (editora Campus) e outro em parceria com o Ramaswamy com título provisório "Co-crianção de Valor: Inovação Made in Brazil", ambos com previsão de lançamento em 2010. De vez em quando sou palestrante convidado em universidades e nos eventos de management no Brasil e exterior. Sou casado e tenho uma filha de 1 ano. Tenho como hobbies a leitura, a yoga, comics, cinema e viagens exóticas pelo planeta. Como filosofia de vida, acredito que temos que moldar e implementar o que queremos do mundo em que vivemos, mão dá para esperar que os "outros" façam isto.
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3 respostas para Adaptando nosso modo de pensar para agir

  1. Márcio Roberto Soares Ferreira Jr. disse:

    Elucidativo, como de usual!

  2. Professor Coutinho:
    Feliz 2011 !
    Mais um vez, um excelente artigo e concordo 100%: temos realmente que pensar diferente pois o atual modelo de pensar – e a crise sistêmica global de 2009 está aí para provar isso – está saturado, no limite, já era. Ou seja, para inovar, nesse contexto, é preciso um novo sistema, uma forma alternativa de pensar, uma outra forma de se fazer negócios, como a co-criação.
    Na minha humilde opinião, DELL, Virgin, Apple tem isso no DNA da empresa com certeza como o professor mencionou no artigo por conta de seus fundadores. Ou seja, pensar “fora da caixa” está na cultura da empresa, é um processo inerente, e por isso essas empresas conseguem realmente inovar de forma sistemática. E ganhar dinheiro com isso. E fazer os consumidores felizes.

  3. Caro André Coutinho,

    Meu nome é Daniel Capello e tenho um Blog chamado Pense e Exista. A proposta do blog é ser um espaço de incentivo ao pensamento crítico e mudança de comportamento. Quero que as pessoas deixem de ser passivas com relação ao que acontece na nossa sociedade.

    Achei muito interessante seu Blog. Meus parabéns. Queria saber se poderia criar uma coluna de um dia por semana no meu Blog com seus textos, retirados deste blog. Obviamente citando você como autor, é claro. Meu interesse é criar um lugar onde as pessoas possam se inspirar e agir diferente.

    Aguardo sua resposta e muito obrigado pela atenção.

    Meu email é: daniel.capello@gmail.com e o site do blog é http://danielcapello.wordpress.com

    Sds,

    DC

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